Magazine do Xeque-Mate

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Precisamos ser os Henfís e os Pasquins da nossa geração!



Xeque - Marcelo Bancalero

Há 25 anos Brasil perdeu o brilhante cartunista, jornalista e escritor Henfil.
Uma pena não termos o combativo chargista para  criar algumas boas imagens sobre as sandices do STF.
O que nosso companheiro  na luta contra injustiças desde os tempos do Pasquim, não teria feito com o abusivo Joaquim?
Precisamos  ser os  Henfís e Pasquins de nossa realidade....
Precisamos  usar as mesmas ferramentas para desmantelar as mentiras que promovem a injustiça.
Faça sua parte, acredite!
Crie suas imagens!
Se não querem nos levar a sério, vamos  brincando falar de coisas sérias até que todos  percebam que é com a população que estão brincando quando  agem sem pudores ao ponto de  ignorar nossa constituição.



Humor de combate: Henfil e os 30 anos do Pasquim

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Dênis de Moraes

dmoraes@netflash.com.br



Para Janio de Freitas e Moacy Cirne



Há 30 anos, surgia o tablóide que iria influenciar o imaginário político-cultural das décadas de 1970 e 1980 — o Pasquim. Creio não estar cometendo o mínimo exagero ao afirmar que o dia 26 de junho de 1969, quando chegou às bancas o primeiro número, se projeta na história do jornalismo brasileiro como referência de suas mais caras tradições de luta. Seis meses antes, na noite de 13 de dezembro de 1968, fora decretado o tenebroso Ato Institucional número 5. O regime repressivo pós-1964 iniciava a sua etapa fascistizante: perseguições, torturas e assassinatos; castração dos direitos civis; censura ominosa; desmantelamento das formas críticas de expressão cultural. O país vivia a ressaca do AI-5 e a parte da imprensa não-subserviente aos desígnios da ditadura militar atravessava uma fase de niilismo e perplexidades. A oposição ao regime, golpeada por cassações de mandatos parlamentares, suspensões de direitos políticos, inquéritos policiais-militares, prisões e exílios, tateava por uma selva escura. Organizações de esquerda já optavam pela via armada.

No ambiente sufocante, setores progressistas de classe média aspiravam por uma publicação que mantivesse a chama democrática acesa. O Pasquim cumpriria a missão, reunindo alguns dos mais brilhantes jornalistas, cartunistas e chargistas da época para satirizar o opressivo e desconjuntado dia-a-dia nacional. Todos cansados de esbarrar em linhas editoriais ditadas pelas conveniências das empresas de comunicação. Nomes como Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Jaguar, Ziraldo Alves Pinto, Sérgio Augusto, Fortuna, Claudius Ceccon, Miguel Paiva, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Martha Alencar, Ivan Lessa e um jovem mineiro nascido em Nossa Senhora do Ribeirão das Neves, batizado de Henfil por Roberto Drummond, seu primeiro chefe e descobridor na gloriosa revista Alterosa, de Belo Horizonte, nos idos de 1963/1964.

Este artigo relembra momentos marcantes de Henfil no veículo pioneiro da imprensa alternativa ou nanica dos últimos decênios. As passagens posteriores do cartunista pelo Caderno B do Jornal do Brasil (com os personagens da caatinga, Zeferino, Graúna, Bode Orelana) e pela revista Isto É (com as célebres cartas para a mãe) merecem lugar de proa no conjunto de sua produção. Mas os anos no Pasquim revestem-se de significado especial. Foi lá que este notável artista do traço se projetou nacionalmente, aos 25 anos de idade, com as endiabradas tiras dos Fradinhos, e viveu uma das fases mais criativas da carreira. O seu humor debochado, cortante e feroz se ajustaria como uma luva ao espírito indomável do Pasquim. Ao pé da letra, Henfil correspondeu ao perfil de cartunista que, na cabeça de Jaguar, faltava ao jornal: um sujeito que fizesse "humor porrada", duro na queda, com a virulência de um Don Martin, da revista Mad.

Além do espaço precioso para dar vazão ao seu inconformismo com as injustiças e preconceitos sociais, Henfil sempre destacou o valor das transformações de linguagem, de estilo e de conteúdo que o semanário introduziu na cena jornalística. "O Pasquim foi a Lei Áurea da imprensa", avaliaria em depoimento a Jorge Ferreira (GAM, julho de 1976). "O jornal modificou a linguagem; nele se escrevia como se falava. Isso reformulou a propaganda no Brasil inteiro, libertou todo mundo, usou palavrões que daí em diante podiam ser falados. Por exemplo, pô, putisgrila, paca. (...) E outra coisa: a gente podia escrever e desenhar de uma maneira muito pessoal — foi essa a chave do negócio — e muito irreverente. Havia uma crítica política, no momento em que a imprensa estava toda calada, uma crítica de costumes. A gente podia realmente fazer as experiências e dar continuidade a elas. Era um exercício muito grande de democracia: ninguém pensava igual ao outro, ninguém concordava com ninguém (...), houve, inclusive, grandes paus escritos, dentro do próprio jornal."

Recordar Henfil e os 30 anos do Pasquim permite-nos resgatar as sinergias entre duas forças que se completavam: o humor de combate daquele homem franzino e risonho, que conseguia captar, sem piedade e sem retoques, a essência do Brasil; e a bravura indômita do semanário que desafiava a cara feia dos censores e sabia, a cada edição, aquecer nossas esperanças e utopias. Lembro-me com que ansiedade eu e alguns colegas que estudávamos Comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em pleno reinado de trevas do general Emílio Garrastazu Médici, aguardávamos semanalmente o dia de comprar o Pasquim. Era como se nossas precoces vocações para o jornalismo dependessem daquela ponte mágica para alcançarem a outra margem do rio caudaloso, onde suspeitávamos que estivesse a melhor profissão do mundo (a definição é de Gabriel García Márquez, primeiro diretor da agência cubana Prensa Latina, escolhido pelo comandante Ernesto Che Guevara).

Ainda hoje, creio que o valioso legado da dupla Henfil-Pasquim acentua um dos traços mais fascinantes do jornalismo: a possibilidade concreta de intervir nos processos político e sociocultural, de olhos postos na construção de um futuro solidário e justo. No caso do Pasquim, com doses demolidoras de sarcasmo e ironia. No caso de Henfil, com seu talento — magistralmente apontado por Janio de Freitas no prefácio de meu livro O rebelde do traço: a vida de Henfil — para "oxigenar as mentes oprimidas pelo pesadelo diuturno que era a boçalidade ditatorial".

I

Desde o fechamento da Pif-Paf, de Millôr Fernandes, os humoristas não cerziam a inquietação de criar um veículo próprio, sem as injunções da grande imprensa. Entre 1964 e1968, a articulação resultou nos suplementos Cartum JS, O Centavo e Manequinho. Um a um, foram fechando. O Manequinho, último baluarte, desapareceu junto com o Correio da Manhã, após o AI-5. O desenho de humor era considerado acessório, quase um luxo. O estreitamento do mercado de trabalho para os cartunistas reforçava a certeza de que só uma publicação alternativa romperia as amarras.

Antes de o Pasquim se concretizar, os jovens desenhistas topavam com outra cratera no meio do percurso: as janelas disponíveis estavam, naturalmente, ocupadas pelos cobrões (Millôr, Ziraldo, Jaguar, Claudius, Fortuna). Embora dispondo de uma área própria no Jornal dos Sports, Henfil tomou a si a responsabilidade de mobilizar organizar a nova geração, juntando-se a Juarez Machado, Miguel Paiva, Ivan, Al e Vagner, entre outros.

O grupo conspirava na casa de Henfil, na Urca. Bem de acordo com o clima incendiário de 1968, eles rebelavam-se contra tudo o que fosse estabelecido. "Nós questionávamos aquela coisa meio institucional do humor, em que só os figurões tinham direito de aparecer", recorda Miguel Paiva. A muito custo, os rapazolas conquistaram brechas no Correio da Manhã e em O Cruzeiro, mas em ambos a experiência se limitou a um ou dois números, porque logo tiveram que repartir as colunas com a velha guarda. O grito de redenção frustrou-se, mas possibilitou aos iniciantes uma autêntica oficina de humor: os desenhos circulavam de mão em mão, um opinando sobre o traço do outro.

Naquele ninho de contestadores, Henfil — o único com a carreira mais ou menos engrenada — representava um farol. "Desde o Cartum JS, ele estava à nossa frente", observa Miguel. "Com vinte e poucos anos, evidenciava a capacidade de produzir ótimas idéias, numa rapidez espetacular. O exemplo dele nos convencia de que as coisas podiam dar certo, desde que metêssemos a cara."

O segundo projeto dos guerrilheiros da Urca foi o lançamento de uma revista de humor independente. Henfil queria que apenas os novos participassem, mas as dificuldades financeiras e logísticas o demoveram a aceitar que os "velhos" (como denominava os desenhistas consagrados) se somassem à empreitada. Intimamente, temia que o círculo vicioso se repetisse: os "medalhões" reservando para si as maiores fatias da torta.

Na constituição da empresa que editaria a revista, houve um impasse quanto à forma de propriedade. Os jovens humoristas defendiam uma cooperativa, com cotas iguais para todos. Os mais antigos descartavam a proposta, alegando disporem de experiência e reconhecimento público. Henfil não contava que boa parte de sua esquadra se unisse à adversária nas reuniões no apartamento de Ziraldo e no auditório do Diário de Notícias. Em posição minoritária e julgando-se traídos, ele e os poucos aliados romperam as tratativas, e a revista nunca saiu. A cooperativa também morreu ali.

Poucos meses depois, o Pasquim viria repor aos humoristas a perspectiva do veículo próprio. Henfil ficou à margem das negociações que resultaram numa sociedade por cotas para dirigir o jornal: 50 por cento para Murilo Reis (ele e Altair de Souza entrariam com capital e o esquema de distribuição) e 50 por cento divididos em cinco cotas iguais para Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Carlos Prosperi e Claudius. Ziraldo e Millôr não quiseram se vincular à empresa, embora se dispusessem a colaborar. O primeiro editor-chefe, Tarso de Castro, fora indicado por Jaguar ao publicitário Murilo Pereira Reis e a Altair de Souza, sócio da Distribuidora Imprensa, para dirigir o jornal que sucederia o Carapuça, lançado em 1968 por Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Alberto Eça e o próprio Murilo. Com a morte repentina de Sérgio, o Carapuça deixara de circular. Murilo resolveu juntar um grupo de jornalistas para bolar o novo semanário. Foram três meses de discussão entre Jaguar, Tarso, Sérgio Cabral e Claudius Ceccon, às vezes Ziraldo. Depois de idas e vindas, chegou-se ao nome Pasquim. Carlos Prosperi elaborou o projeto gráfico e, com a desistência de Jaguar, chamado por Samuel Wainer para a Última Hora, Tarso de Castro assumiu a editoria. O compromisso básico era prosseguir com a crítica mordaz de Carapuça, que se apresentava ao público como "semanário hepático-filosófico".

II

O Pasquim chegou às bancas em 26 de junho de 1969. A frase que constava do cabeçalho equivalia a uma declaração de princípios: "Aos amigos, tudo; aos inimigos, a Justiça." Em um texto mordaz, editado no alto da primeira página, a equipe expunha o seu ideário: "O Pasquim surge com duas vantagens: é um semanário com autocrítica, planejado e executado só por jornalistas que se consideram geniais e que, como os donos dos jornais não conhecessem tal fato em termos financeiros, resolveram ser empresários. É também um semanário definido, a favor dos leitores e anunciantes, embora não seja tão radical quanto o antigo PSD. Até agora o Pasquim vai muito bem, pois conseguimos um prazo de 30 dias para pagar as faturas. Este primeiro número é dedicado à memória do nosso Sérgio Porto, que hoje deveria estar aqui conosco." Na última página, aparecia o expediente: Tarso de Castro (editor), Sérgio Jaguaribe (editor de humor), Sérgio Cabral (editor de texto), Carlos Prósperi (editor gráfico), Claudius Ceccon e Murilo Pereira Reis (diretor-responsável).

A revolução do Pasquim não demorou a acontecer, apesar de muita gente achar que o formato tablóide fracassaria e que uma tiragem de 14 mil exemplares era uma retumbante doideira. O número 1 trazia uma entrevista de Ibrahim Sued ("Sou imortal sem fardão") e colaborações de Chico Buarque ("Por que sou tricolor") e Odete Lara (escrevendo sobre o Festival de Cannes), além do show de zombaria nos cartuns.

Às onze horas da noite daquela quinta-feira, Sérgio Cabral recebeu um telefonema de Altair de Souza, da gráfica.

— Vamos ter que rodar mais 14 mil, porque a edição esgotou!

Henfil estreou no número 2. Tarso de Castro sugeriu que prosseguisse com o cartum esportivo, de tanto sucesso no Jornal dos Sports. Ele desgostou-se:

— Falar de esporte pra Ipanema e pras universidades? Pô, não tem nada a ver!

Futebol era o último item na sua lista. Fazia quase por obrigação, e continuava achando um tédio o compromisso de quase todo domingo aboletar-se na tribuna de imprensa do Maracanã. Contrapropôs a Tarso uma série inspirada em dois personagens que aguardavam uma oportunidade no time principal: os Fradinhos. Mostrou dois desenhos antigos e Tarso ensaiou reprová-los:

— Não era bem isso...

As primeiras tiras de Baixinho e Cumprido, chamados de "Os dois Fradinhos", haviam sido publicadas de julho a dezembro de 1964, na revista Alterosa. Apesar das reticências de Tarso, Henfil intuía o potencial explosivo do frade dominicano Baixinho, que arrastava Cumprido em suas estripulias nada carolas. Chutavam latas de lixo pelas ruas; tocavam campainha nas casas e saíam correndo; cuspiam nos pedestres que passavam embaixo das árvores em cujos galhos se escondiam.

Tarso consultou o espelho do número 2 e, sem entusiasmo, passou as tiras dos Fradinhos para Fortuna, paginar. Saiu em um quarto de página, com a devida apresentação de Sig, o rato que ruge, símbolo do jornal criado por Jaguar: "Henfil, o Don Martin de Minas Gerais". A historinha, como Henfil admitiu, era "boba e sem graça": Baixinho diz que gostaria de ter nascido mulher, e bem sem vergonha. Cumprido desconfia e sai correndo, perseguido pelos beijos de Baixinho.

Henfil revirou de cabeça para baixo a personalidade do Baixinho, injetando-lhe uma overdose de sadismo, de embevecer os hell's angels. A agressividade reforçava-lhe a índole anárquica, aguçando-se o contraste com o comedido Cumprido.

No número 8 (8/8/69), a série começou a esquentar: em três quartos de página, Baixinho apresenta a mãe a Cumprido, que se encanta com a jovialidade dela: "A senhora tem cem anos pela frente..." A mãe responde: "É... Se eu não estivesse com câncer..."

Três semanas depois, ele estourava no Pasquim: uma página e a chamada de capa "Os Fradinhos do Henfil em novas e sensacionais engrossadas". Cumprido, desesperançado, ameaça jogar-se do terraço de um prédio. Baixinho barbariza: "Pula em parafuso! Adoro um salto em parafuso!"

A relutância de Tarso de Castro reduziu-se a pó. Aparecera alguém para quebrar o tabu de que a religião deveria ser poupada pelos humoristas. Henfil proclamava o contrário: a educação religiosa tradicional, povoada de dogmas, de medos e de repressões, era um prato cheio. Principalmente pelas hipocrisias que distanciavam os atos humanos dos catecismos e dos refrões morais. Ele dissertava: "O Baixinho anarquiza, ridiculariza e agride as falsidades e as hipocrisias da sociedade em que vivo. Ele é toda uma negação da religião do terror, na qual tudo é pecado. Minha política é simples: poesia não, sadismo sim."

Henfil fixava os contornos definitivos da dupla espelhando um conflito de personalidades que, na realidade, era seu: o lado careta, carola e conservador, representado por Cumprido; e o lado revolucionário, anarquista e utópico, encarnado pelo Baixinho. O primeiro herdado da formação familiar mineira; o segundo inspirado na pregação libertária dos dominicanos e agudizado pela consciência de viver numa sociedade de desigualdades e imposturas.

O sadismo crônico do Baixinho transgredia cânones morais com a cara mais lavada do planeta. Sua marca indelével era o gesto obsceno da mão esquerda fechada, formando o punho, e a direita, espalmada, batendo sobre a esquerda. O efeito sonoro — "top, top, top" — equivalia a uma maneira pouco ortodoxa de dizer que o outro estava ferrado.

Sem abdicar do hábito dominicano, Baixinho atropelava os mais transcendentes pruridos. Tirava meleca e grudava no corrimão da escada; colocava casca de banana para alguém se arrebentar no chão; atraía um esfomeado cãozinho com um osso e o abatia com um porrete; empestiava um velório com uma essência fétida para espantar os amigos do morto, esperava uma criança na descida do escorrega com uma gilete... A cada crueldade, inacreditavelmente sorria. Um sorriso escancarado, malicioso, com muitos dentes aparecendo — inspirado, segundo consta, no sorriso do jornalista e escritor Ruy Castro, a quem Henfil conhecera em 1969.

Cumprido, santo homem, sofreu nas mãos do perverso. Veja esta: Baixinho pede que Cumprido abra a boca que ele tem uma surpresa. Despeja uma caixa de lasquinhas salgadas. Manda Cumprido adivinhar o que era. "Que qui é? Fritas à francesa?" Baixinho assobia e tem um orgasmo ao elucidar: "Errou! Casquinha de leproso!"

Um cristão de quatro costados perguntaria: como é que o autor se sentia ao desenhar tais blasfêmias? Henfil dizia que criar os Fradinhos era como arrancar alguma coisa de dentro de si, mas não exatamente a sensibilidade do coração, e sim "tirar para fora quilômetros de intestino ou de fígado". Ou seja, naquela cascata de revelações, misturavam-se os sentimentos menos nobres, as tentações e as impurezas. "O Fradim rompe tudo, inclusive a minha comodidade de criador. Quando posso, evito desenhá-lo. Ele me arranca sangue. Até me espanto com o que criei, como se um demônio me ocupasse por alguns segundos."

Por esse trailer, dá para entender por que a artilharia de cinismo dos Fradinhos, em poucos meses, rivalizava em empatia com o Sig de Jaguar. No número 18, Henfil alcançou a contracapa; a partir do 25, cansou de arrebatar as páginas centrais e uma legião de fãs em todo o país. Anos depois, Henfil lançaria pela Codecri a Revista do Fradim, que, mesmo acossada pela censura, obteria vendas expressivas.

III

O Pasquim impôs-se pela imaginação incontrolável e pela quebra de formalidades. Com alvos claros: a ditadura, a classe média moralista, a grande imprensa, os coniventes de plantão. De quebra, ocupou o terreno baldio existente entre a cultura chapa-branca e tradição de esquerda, discutindo modos de vida, padrões de comportamento e até ecologia. Com a anticaretice e o humor venenoso do Pasquim, o cenário morno do nosso jornalismo adquiriu alta voltagem. A diagramação criativa valorizava as ilustrações (desenhos, caricaturas e montagens fotográficas). As frases da capa aturdiam: "Pasquim, ame-o ou deixe-o", "Um jornal que tem a coragem de não se definir", "O papel da grande imprensa: papelão", "Cada povo tem o Idi Amin que merece", "Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados".

A linguagem coloquial e desabrida seduzia, pois a escrita se aproximava do jeito que se falava. O palavrão passou a valer. A palavra "bicha", execrada pelo falso puritanismo, pôde finalmente ser impressa em letras de fôrma. Gírias e expressões como "inserido no contexto" viraram moedas correntes. "Tiramos o paletó e a gravata da linguagem", ressalta Jaguar. Henfil reivindicava a paternidade na bolação de sons (top-top, xuip, arrout, nhoiqui, slepid), expressões (cacilda, tutaméia, putisgrila, baralho, puribela, cambuta), junções (olhaqui, sacumé, cumé, preu, praquilo, prele), diminutivos em m (baixim, fradim, tadim) e simplificações (cê, no lugar de você).

As entrevistas coletivas com personalidades as mais diversas (de Vinicius de Moraes e Darcy Ribeiro a Madame Satã e Beki Klabin) tornaram-se chamariz do jornal. No bate-papo, sem fronteiras rígidas entre entrevistados e entrevistadores (que opinavam livremente), eram reproduzidas praticamente como saíam do gravador. O sucesso da fórmula fora acidental. Na pressa de fechar o número 1, imprimiu-se a entrevista de Ibrahim Sued sem qualquer revisão — os leitores receberam a transcrição literal da conversa, com o tom das falas, os gestos, os tumultos etc. E o leitor levava de lambuja pérolas impagáveis de Sued, como estas duas: "Acho Proust um chato"; "A vida sem o supérfluo não vale nada, por isso detesto a União Soviética, onde residi por quase duas semanas".

Outra sensação eram as Dicas — quatro páginas com notas curtas (todas assinadas) cartuns e caricaturas. A seção se transformou em um dos QGs de Henfil, que dali mandava recados a amigos, paquerava mulheres, queixava-se das anuidades escolares (um menino entrega ao pai a lista de material: um talão de cheques, um livro-caixa com 150 folhas e dois blocos de promissórias!), cobrava pontualidade nos horários de shows, indicava ou contra-indicava discos e filmes, sugeria obras contra as enchentes no Rio etc.

De tanto reclamar através das "pragas do Pasquim", ele terminou criando o Comitê de Defesa do Criouléu (Codecri, nome que seria adotado depois pela editora vinculada ao semanário). Sem a menor cerimônia, incitava os leitores a enviarem suas queixas: "Tão te fazendo de besta? De gato e sapato? Tá comendo produto podre? Comendo gato por lebre? Homem por mulher? Escreva para o Codecri que o Henfil, o terror do pólo dominante, cai de cacete nele!" Não brincava em serviço. Denunciava detergentes que não limpavam, sucos de frutas com conservantes químicos, teatros que enchiam a platéia de cadeiras de madeira para faturar mais, capas de livros que descolavam, lentidão nas remessas dos Correios, gelos baianos em locais inapropriados...

O Pasquim sobressaiu como fonte geradora de cartunistas — lançou entre 100 e 200. Se bem que, na arrancada, os veteranos monopolizaram a trincheira — seja pela cancha acumulada, por rigor intencional ou para conter o assédio dos novatos. Miguel Paiva, por exemplo, amargou um tempão nas Dicas e na retaguarda burocrática para ter uma nesga na vitrine. Nesse aspecto, a ascensão meteórica de Henfil estilhaçou os direitos adquiridos e introduziu a concorrência. "Ele foi o manobrista do reboque. Nós fomos atrás", sintetiza Miguel.

Henfil, que continuava morando na Rua Machado de Assis, no Flamengo, não se integrou ao clima ipanemense que caracterizou a primeira fase do Pasquim. "Ele era retraído e reticente, raramente se envolvia com os lances da patota", depõe Jaguar. Fazia questão de se manter à margem de todo e qualquer alarido — e também da guerra de egos. Figura bissexta na redação, enviava os desenhos por um portador. Jamais assinou ponto nos bares e restaurantes eleitos pela maioria. "Não freqüento a República de Ipanema. Sou quase um fazendeiro. Não sou cara de andar de túnica africana e sandália", disparava. Só bebia guaraná ou soda limonada; chope, esporadicamente, com amigos do peito; caipirinha, uma a cada trimestre, e depois de alguma insistência. E nem a fama lhe faria abandonar a índole franciscana: usava calça jeans, camiseta e sandálias de couro; consumia o mínimo indispensável (exceção feita a equipamentos eletrônicos, que adorava).

De mau-humor, Henfil subvertia os tratados de mercadologia com a sua implicância (meio à Nelson Rodrigues!) com o perfil intelectualizado dos leitores do Pasquim: "Esse pessoal é de moda, muda de filósofo, de Marcuse, como quem muda de camisa. Muda de cantor como quem muda de cueca. Fica mudando porque não tem raiz nenhuma — devido à formação estrangeira, vive de costas para o Brasil. O sonho deles é pegar uma bolsa de estudos para a Europa, é ir passear ou trabalhar nos Estados Unidos."

Mas, em matéria de escracho e gozação, se afinava em gênero, número e grau com o restante da turma. "Na ousadia, ele entrava como ponta-de-lança, e não apenas pelos gestos indecentes do Baixinho. Brincalhão e independente, fazia o que bem queria e ninguém escapava impune. Mas sempre com absoluta doçura no trato", sublinha Sérgio Cabral.

Como explicar que cabeças tão diferentes tocassem na mesma orquestra sem rasgar as partituras? Afora a afinidade oposicionista, no Pasquim as idiossincrasias, longe de serem ocultadas, subiam à superfície. Se um molestava o outro, pode acreditar, por trás havia rusgas insolúveis ou charme para azeitar o marketing. As alfinetadas ajudavam a construir a identidade do jornal, da mesma forma que as bordoadas de Newton Carlos às ditaduras latino-americanas, a lucidez de Sérgio Augusto na coluna É isso aí, a faca amolada de Paulo Francis e a página underground de Luiz Carlos Maciel.

As individualidades, bem ou mal, compatibilizavam-se porque, de acordo com Henfil, o Pasquim funcionava como uma espécie de time de onze Garrinchas: "Esses Garrinchas têm uma linha política mais ou menos comum, embora um jogue mais recuado, outro avance bem mais, outro só lance. E há um ponto-chave: o Pasquim é um jornal de humor. É muito difícil você fazer uma linha editorial para o humor."

Martha Alencar, primeira secretária de redação, diz que editar o semanário com tantas estrelas ávidas por liberdade exigia uma habilidade diplomática: "O Pasquim era uma fogueira das vaidades. Os fechamentos eram engraçadíssimos, porque implicavam uma experiência de fechar os territórios: duas páginas do Millôr, duas do Ziraldo, duas do Tarso, duas do Jaguar, e você não podia interferir. Henfil não se envolvia com as disputas entre facções. Ele cuidava da vida dele e investia na produção."

O Pasquim era quase impautável. Rascunhava-se uma pré-pauta nas mesas dos botecos. Jaguar, Ziraldo, Fortuna, Paulo Francis, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Flávio Rangel davam palpites e, antes de pedir a conta, chegavam a um consenso mínimo. "Era um negócio ótimo, porque bolávamos em conjunto as matérias e até as chamadas de capa. Eu jogava uma idéia, Ziraldo acrescentava, o Fortuna ampliava. Um verdadeiro Santos Futebol Clube, da época do Pelé", lembra Jaguar. Henfil entrava mudo nas reuniões e saía... eu ia dizer calado, mas não é bem isso. Ele ouvia a tudo impassível. Nos dez minutos finais, quando a empolgação era movida a doses de scotch, ele botava água na fervura:

— Acho pouco... O próximo número precisa de mais alguma coisa.

Os maiorais estrilavam com o advogado do diabo, mas acabavam lhe dando razão. "Henfil era um espírito-de-porco que forçava a equipe a se superar em matéria de criatividade", resume Jaguar.

Henfil participou de no máximo 15 entrevistas no Pasquim. E olha que estar ali conferia status. Se lembrarmos que ele colaborou com o semanário por mais de 15 anos, facilmente concluiremos que, também neste campo, era um autêntico corpo estranho na ipanemia. Incomodavam-no o exibicionismo e a graça forçada de alguns entrevistadores. Ainda assim, ajudou a imprensar Ruy Guerra (que, no meio do papo, atribuiu aos Fradinhos influência de Dostoiévski, logo rejeitada por Henfil: "Fui influenciado pela minha mãe!"), Paulo Francis, Fauzi Arap, Ivan Lins, Ítala Nandi, Sérgio Ricardo, Octávio Ribeiro e Ziraldo, entre outros. No período de abertura política, fez sozinho entrevistas de larga repercussão com Francisco Julião e com seu irmão Herbert de Souza, Betinho, ambos exilados no México, e o senador Teotônio Vilela.

IV

Henfil atrevia-se a declarar que a República de Ipanema era "uma coisa caricata e fresca", mas fechava integralmente com a patota do Pasquim nas adversidades. A censura foi, com certeza, uma das piores. Ao instituir a censura prévia à imprensa pelo decreto-lei nº 1077, de 26 de janeiro de 1970, o general Médici advertia que não seriam toleradas publicações contrárias ao regime, à moral e aos bons costumes, em quaisquer meios de comunicação, aí incluídos os livros.

No número 39, a Polícia Federal requisitou os originais do Pasquim. No expediente daquela edição, o semanário alertava: "Este número foi submetido à censura e liberado." A capa retratava a atmosfera de tensão: o rato Sig, fantasiado de estátua da liberdade, suava de medo. A partir da capa dedicada a dom Hélder Câmara, no número 40, em abril de 1970, a coerção aumentou. Mas nem se pode acusar de malvados os dois primeiros censores. A cordial Dona Marina caiu na asneira de se alojar na redação para exercer seu triste ofício. Jaguar e Ziraldo descobriram que ela adorava um drinque. De trago em trago, liberava quase todos os cartuns. Resultado: foi afastada e substituída pelo general da reserva Juarez Paz Pinto. No primeiro encontro, às 8 horas da manhã, na Polícia Federal, os sonolentos Cabral, Ziraldo e Jaguar tomaram um susto com a fala do militar:

— Há duas coisas que eu faço bem: montar a cavalo, pois praticamente nasci na Cavalaria, e transar. Ainda ontem...

E, animado, começou a contar os detalhes. Dali a semanas, convivia-se razoavelmente bem com o general, enxuto para a idade e cheio de namoradas. Juarez examinava matérias e desenhos confortavelmente sentado num sofá de sua garçonnière. Na parede, um pôster de Brigitte Bardot com os seios de fora. Vez por outra, apresentava uma das namoradas aos jornalistas:

— Este aqui é o Jaguar, aquele ali é o Ivan Lessa. Vai lá para dentro que estou acabando de censurar o jornal, não demoro...

Sutilmente, a turma do Pasquim estimulou a camaradagem. Toda quarta-feira, a secretária levava o material a ser vistoriado ao posto 9 da praia de Ipanema, onde o general jogava biriba com os amigos. A aproximação deu frutos, porque passavam coisas que não deveriam passar. Certa vez, Juarez anotou nas margens de originais submetidos à aprovação: "Piada liberada, mas o final está pessimamente contado."

A condescendência acabou quando a censura foi transferida para Brasília. Mas, para entender por que isto aconteceu, é preciso verificar os antecedentes. Ultrapassando os 200 mil exemplares no número 22, com a entrevista da atriz e musa Leila Diniz, o Pasquim preocupou os escalões do regime — preocupação tardia, pois deixaram o jornal crescer e se tornar um dos porta-vozes da oposição possível. Como a publicidade era diminuta, o semanário dependia das vendas em banca. O modo mais rápido de asfixiá-lo seria impedir a circulação regular, o que poderia se alcançar com a censura implacável e intimidações à equipe, para desarticulá-la.

Em 30 de outubro de 1970, agentes do Doi-Codi invadiram a redação e prenderam Ziraldo, Luiz Carlos Maciel, o diretor de publicidade, José Grossi, e o auxiliar Haroldo Zager. Paulo Francis foi detido em casa. O fotógrafo Paulo Garcez, que se casara dois dias antes, ao sair para comprar goiabada, recebeu voz de prisão. Sérgio Cabral e Fortuna, que se encontravam em Campos fazendo palestra numa faculdade local, avisados, retornaram ao Rio. A polícia prendeu Fortuna quando chegou à casa. Todos foram levados para um quartel na Vila Militar.

Cabral teve tempo de ir à gráfica, onde estava rodando a edição do Pasquim. Alguém lhe chamou a atenção para o cartum de Jaguar reproduzindo o quadro pintado por Pedro Américo em que Dom Pedro I dá o grito do Ipiranga, em 1822. Jaguar pôs um balão na boca de Dom Pedro com a frase tirada da música de Jorge Ben que não parava de tocar nas rádios: "Eu quero é mocotó!" A piada era tão boa que Sérgio Cabral se recusou a retirá-la do jornal. Só que o primeiro escalão do regime reputou a brincadeira como atentatória à segurança nacional — como se a tela de gosto duvidoso de Pedro Américo constituísse um ícone da Pátria. A edição foi apreendida horas após a impressão.

Cabral, Jaguar, que retornara de Arraial do Cabo, e Flávio Rangel decidiram atender a convocação do Exército. Havia a promessa de, após os depoimentos, liberar toda a patota. Os três fizeram uma vaquinha e tomaram um táxi para Marechal Hermes. A corrida custou os olhos da cara. Antes de entrarem na Vila Militar, beberam umas cervejas num boteco. Sequer levaram malas com roupas e objetos pessoais. Ingenuamente, caíram na boca-do-lobo, onde acabaram presos junto com os demais. Souberam, mais tarde, que o ministro do Exército, Orlando Geisel, irado com o cartum do mocotó, mandou estender as duas semanas de cadeia para dois meses.

E Henfil? Ele ficou branco como papel ao ser informado, por telefone, das prisões. Teve sorte de não estar na redação na hora da batida. Não quis pagar para ver, até porque tinha consciência do que significava levar uma simples bofetada. Como hemofílico, qualquer sangramento poderia ser fatal. Passou alguns dias escondido numa cobertura da Rua Otávio Correia, na Urca, onde morava o músico Nélio Rodrigues, seu amigo.

Como ninguém o procurou em casa, Henfil abandonou o sumiço preventivo, juntando-se a três outros dínamos do Pasquim que estavam em liberdade: Millôr Fernandes, Martha Alencar e Miguel Paiva. Grávida de cinco meses, Martha fora presa em casa e levada, com revólver nas costas e de olhos vendados, para dar voltas de carro, até o quartel da Brigada de Pára-Quedistas, no Campo dos Afonsos. Interrogada a noite inteira, usou um estratagema perfeito para livrar-se das perguntas. Como os militares desconheciam as atribuições jornalísticas de uma secretária de redação, Martha insistiu o tempo todo que era uma simples secretária e não sabia dos meandros do Pasquim. Na manhã seguinte, o comandante da Brigada, general Hugo de Andrade Abreu, futuro chefe do gabinete militar no governo Ernesto Geisel, ao tomar conhecimento de que a presa estava grávida, mandou soltá-la.

Martha sentiu-se com habeas-corpus para, depois de tomar um banho e trocar de roupa, voltar à redação. Lá, encontrou pregado na parede um bilhete de Chico Buarque, manifestando solidariedade ao jornal. Em minutos, chegou Glauber Rocha, com raiva cívica:

— Temos que fazer alguma coisa. Estou aqui para o que der e vier. A gente mobiliza o pessoal.

O telefone não parou de tocar: eram amigos querendo notícias da equipe presa e manifestando irrestrito apoio. Henfil articulou-se com Martha e Miguel Paiva e, no impulso, os três procuraram Millôr com a proposta de manter o Pasquim em circulação. Millôr concordou sem pestanejar, enquanto se acionavam advogados para defender os presos.

Uma verdadeira força-tarefa, sob a coordenação de Martha, se mobilizou para reeditar o Pasquim. Por consenso, resolveram descentralizar os trabalhos, evitando que uma nova investida da repressão dizimasse os sobreviventes. Martha foi a única que permaneceu na redação. Os outros trabalhavam em casa ou se refugiavam com amigos e parentes.

Na semiclandestinidade, Henfil, Millôr e Miguel Paiva combinaram de desenhar e escrever em nome dos que estavam detidos, inclusive assinando por eles. Além de mantê-los presentes no jornal, tentariam segurar os leitores, visto que a maioria possivelmente ignorava o que acontecia. Dividiram-se por estilos. Henfil desenhou imitando Jaguar e Fortuna; Miguel Paiva, o de Ziraldo; Millôr escreveu textos como se fosse Sérgio Cabral, Paulo Francis, Flávio Rangel e Luiz Carlos Maciel

Na cadeia, os personagens reais vibraram — já tinham desistido da greve de fome, que ninguém ali era de ferro-gusa, e molharam o bolso do guarda de plantão para conseguir umas cervejas extras. Jaguar interrompeu a compenetrada leitura de Guerra e paz, de Tolstói, para rir de seu Sig completamente destrambelhado por Henfil. Intelectualizado e cheio de bons modos, Sig, possuído pela veia sádica do Baixinho, fazia xixi nos pés dos outros!

Os censores piraram: Jaguar, Ziraldo & cia. não estavam confinados?

Foi preciso despender bons quilos de energia para assegurar a continuidade do Pasquim. Martha, Henfil, Millôr e Miguel produziam 80 por cento do jornal. O espaço restante era preenchido com colaborações de artistas e intelectuais que se ofereceram espontaneamente — entre eles Glauber Rocha, Chico Buarque, Otto Lara Resende, Rubem Braga, Carlos Heitor Cony, Antônio Callado, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Marcos de Vasconcellos. Henfil varou noites na prancheta, mesmo quando sofria dores pavorosas com derrame em um dos joelhos. "Quando eu ia ao apartamento dele, encontrava-o na azáfama, com olheiras, mas firme", rememora Martha. Os leitores sagazes não custaram a perceber o código de comunicação proposto pela redação: sem poder se referir aos companheiros presos, os editores falavam sempre na "gripe" que assolara o Pasquim.

Cada fechamento obrigava Martha Alencar a um maratona que incluía telefonemas a Millôr e Henfil, além de corridas ao estúdio de Millôr, na Praça General Osório, para lhe mostrar parte do material. Apesar de todo o empenho na retaguarda, a vendagem do jornal caiu para menos de 100 mil exemplares — cerca da metade do que tinha antes da "gripe". Era mesmo impossível, com tantos desfalques e edições improvisadas, evitar a queda na qualidade do produto.

Às 23 horas do dia 31 de dezembro de 1970, o Exército libertou os nove inocentes. Jaguar, frustrado com o fim do come-e-dorme na Vila Militar, pegou um táxi direto para o reveillon de Albino Pinheiro em Santa Teresa. Quando apareceu no salão, foi carregado em triunfo.

Meses depois, a patota do Pasquim sofreria outro rude golpe, com a transferência da censura prévia para Brasília. A logística imposta pela Polícia Federal impôs os maiores contratempos. O material precisava seguir, com antecedência, por malote aéreo. No prazo fixado pelos censores, um portador ia ao aeroporto buscar o que sobrara dos originais. O jornal era editado sem tempo para reposição. Por isso, produzia-se, semanalmente, um jornal e meio, para compensar os vetos e garantir a circulação. Na falta de matérias, Millôr Fernandes desencavou suas traduções de Shakespeare, Sófocles e Molière. Henfil, Ziraldo e Jaguar estendiam seus cartuns por páginas e páginas.

V

Um dos momentos culminantes de Henfil e do próprio Pasquim foi o Cemitério dos Mortos-Vivos. Nele, o cartunista enterrava, com sete palmos de desacato e desprezo, personalidades que, a seu juízo, simpatizavam com a ditadura, ou se omitiam politicamente. Nessa espécie de "tribunal da causa justa" — precursor do politicamente correto —, Henfil pôs a nu falhas de caráter, oportunismos de toda ordem e desvios ideológicos. "Caráter não dá cupim", era a sua frase favorita ao exigir máxima coerência das pessoas. Ele assim se explicou ao jornal estudantil WO (agosto de 1973):

"Eu não sou radical com os homens, sou radical com as atitudes. Se um cara tomar uma atitude covarde ou hipócrita, mesmo que tenha razões ou justificativas, sou da maior impiedade com esse cara. Acho que ele deve sofrer imediatamente uma represália. Se eu puder, dou essa represália. Por exemplo, botando no Cemitério dos Mortos-Vivos. Mas sei que não dá jeito de falar que alguma pessoa tome sempre atitudes erradas. E acredito muito na recuperação das pessoas. Tenho que acreditar, porque eu me recuperei. Do jeito que eu ia, acabaria sendo padre ou pior que isso."

O Cemitério descendia do Comando de Caça aos Carecas (CCC), inventado por Henfil no segundo semestre de 1970. Um triunvirato de respeito comandava o CCC (evidente escárnio com o famigerado Comando de Caça aos Comunistas): Baixinho, um boneco imitando o animador de auditório Chacrinha (apreciado por Henfil) e um novo personagem, o papagaio Pô de Souza, especialista em rastrear "carecas"— pessoas, segundo o cartunista, geralmente alienadas, consumistas e de caráter duvidoso. Enquadrando-as ou não no arquétipo, as primeiras vítimas do CCC foram o apresentador Flávio Cavalcanti, favorável ao regime; o compositor Carlos Imperial, expoente da "turma da pilantragem" na zona sul carioca; e o cantor Wilson Simonal, contra quem Henfil movia dupla objeção: não suportava o seu estilo musical "patropi" e via-o com desconfiança desde que o acusaram de dedurar colegas.

A prisão da equipe do Pasquim interrompeu a série, retomada com vigor em fins de 1971, quando Henfil apresentou o Tamanduá, "a besta do apocalipse que assola nosso torrão". Afilhado do Baixinho, ele chupa cérebros para revelar as faces ocultas de pessoas que aceitam as condições políticas e culturais vigentes. Os alvos imediatos de Tamanduá foram Nelson Rodrigues, Simonal, Flávio Cavalcanti e Gustavo Corção. Henfil irritava-se com o moralismo de Corção, intelectual católico ultraconservador que, na juventude, fora um empedernido ateu de extrema-esquerda. A aquiescência de Nelson aos governos militares estava entalada na garganta do cartunista.

Com Simonal, Henfil foi implacável. Basta ler a historinha do número 125 (23 a 29/11/71). Vaiado pelo povo, o cantor busca apoio em Tamanduá, que diz nada poder fazer, lembrando que ao chupar seu cérebro sofrera uma intoxicação de 15 dias. "Ô meu Deus, o que o Chico Buarque tem que eu não tenho?", lamenta-se. Tamanduá o reconduz ao palco, mas as vaias explodem quando canta Meu limão, meu limoeiro e Moro num país tropical. De repente, o público começa a bater palmas. "Você conseguiu conquistar o aplauso do povo!", comemora Tamanduá. Simonal estava com um revólver apontado para a cabeça...

Na edição seguinte (30/11 a 6/12/71), é a vez de Gustavo Corção exigir de um enfadado Tamanduá que chupe seu cérebro. E explica: "Mostre onde eu me alimento para a minha luta diária contra a falta de vergonha e de moral deste século sujo!" Atendido o pedido, Corção se horroriza com o que é expelido de sua cabeça: 25 mulheres nuas nas mais excitantes posições sexuais! No desespero, tenta safar-se: "Credo! Havia infiltração comunista na minha cabeça!"

Até que no número 129 (21 a 27/12/71), surgiu, num terreiro de macumba, o protagonista do Cemitério dos Mortos-Vivos: o Cabôco Mamadô. Os Fradinhos se espantam e o Cabôco avisa: "Vou passar a fazer uma coluna no Pasquim! Vou baixar o nível de conforme para arrepiar o desespero da rapaziada intelectual..." Baixinho vibra: "Agora sim! Temos um assistente espiritual." Cumprido o repreende: "Baixim, seu protestante! É pecado praticar macumba! Vai secar sua mão!" No rodapé, Henfil adianta o que estava por vir: "Tremei, Flávio Cavalcanti, Simonal, Pelé, Nelson Rodrigues, Corção, Mequinho, Don e Ravel. Terrível! Excede! Não percam na próxima semana: APAVORANTE! O novo personagem! A coluna do Cabôco Mamadô."

O mistério acabou no número 131 (04 a 10/01/72). Tamanduá prepara o "despacho" para o aparecimento do Cabôco Mamadô. Depois de "baixar" no Pasquim, o Cabôco convida os leitores a acompanhá-lo até a cerimônia de reencarnação em seu cemitério particular. "Meu cemitério só tem mortos-vivos" Na página seguinte, desenhou os túmulos com os nomes dos mortos-vivos.

A relação era extensa e eclética. Pela ordem: os cantores Don e Ravel, Wilson Simonal, Eduardo Araújo; o dramaturgo Nelson Rodrigues; o sociólogo Gilberto Freyre; os economistas Roberto Campos ("Bob Fields") e Eugênio Gudin; os apresentadores de TV Flávio Cavalcanti, Hebe Camargo e J. Silvestre; os técnicos de futebol Zagalo, Flávio Costa e Yustrich; os jornalistas David Nasser e Samuel Wainer; os compositores Sérgio Mendes e Carlos Imperial; a escritora Rachel de Queiroz; o maestro Erlon Chaves; o humorista José de Vasconcelos; os bispos Dom Vicente Scherer e Dom Geraldo Sigaud; o presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange; o publicitário Miguel Gustavo; os deputados da Arena Amaral Neto e Geraldo Freire; o senador da Arena Filinto Müller; o enxadrista Mequinho; os atores Jece Valadão e Bibi Ferreira; o poeta e teórico da comunicação Décio Pignatari; o radialista Ruy Porto; o locutor Heron Domingues; o conjunto Os Incríveis; o fotógrafo Jean Manzon; o líder integralista Plínio Salgado; e a Tradição, Família e Propriedade (TFP).

Posteriormente, novos túmulos apareceram: os de Pelé; do então governador do Estado do Rio de Janeiro, Raymundo Padilha; dos empresários de comunicação Adolpho e Oscar Bloch; da atriz Yoná Magalhães; da cantora Eliana Pitman. Na capa do número 174 (31/10 a 6/11/72), com a manchete "Os finados do Cabôco Mamadô", ele reapresentou nomes das listas anteriores e acrescentou o escritor Josué Montello; o FIC (Festival Internacional da Canção); "The Globe" (provável alusão a O Globo); Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP; o cronista José Carlos (Carlinhos) Oliveira; e o Júri Jovem do Programa Flávio Cavalcanti; o poeta Homero Homem; o professor Gilson Amado.

Salvo exceções, Henfil não esclarecia os motivos específicos que o levavam a despachar as pessoas para o Cemitério dos Mortos-Vivos. Especulava-se sobre o porquê da inclusão deste ou daquele nome. Algumas suposições atravessavam a redação do Pasquim: o anticomunismo dos bispos católicos, da TFP e de Plínio Salgado; as teses econômicas de Gudin e Campos; as fotografias encomendadas por agências oficiais a Jean Manzon; a truculência de Yustrich; a "americanização" de Sérgio Mendes; a retórica antiesquerdista de David Nasser; a fidelidade absoluta ao regime dos parlamentares arenistas...

Entre os que tiveram suas condenações justificadas por Henfil, estavam Amaral Neto, pelo programa televisivo de exaltação aos feitos do "milagre econômico"; Homero Homem, por ter enviado ao JB carta simpática ao programa de Amaral Neto; Miguel Gustavo, autor de Pra frente, Brasil, trilha sonora do triunfalismo brasileiro na Copa de 70; Don e Ravel, por Eu te amo, meu Brasil, hino do "Brasil grande"; José de Vasconcelos, reencarnado como bobo da corte e dizendo: "Não faço rir com palavrões e imoralidades! Construtivo! É assim que faço rir!"). Implicou com Hebe Camargo por achar que ela não escolhia a quem aplaudir em seu programa de TV. O túmulo do empresário Sílvio Santos, segundo o Cabôco, constava do "plano de expansão" do cemitério.

Dentro e fora do meio literário, houve protestos quando Clarice Lispector figurou entre os Mortos-Vivos. Henfil teria se excedido ao nivelar uma escritora de categoria, sem vínculos com a ditadura, a papa-hóstias de reconhecida subserviência. Clarice, ao que consta, fez chegar a Henfil sua contrariedade. No número 138 (22 a 28/2/72), o cartunista tentou se explicar nas tiras do Cabôco Mamadô. Clarice aparece chorando e confessando-se chocada, traumatizada com tanta agressividade contra ela por parte do humorista. O Cabôco responde que Henfil não está livrando a cara nem dos intelectuais de centro... A escritora argumenta que é "uma simples cronista da flor, dos pássaros, das gentes, da beleza de viver..." O Cabôco replica que ela foi parar no cemitério devido a uma reencarnação: no passado, era Pôncio Pilatos! A seguir, Henfil coloca Clarice dentro de uma redoma de vidro, lavando as mãos, cercada por pássaros e flores, enquanto Cristo era crucificado.

Ao responder à sugestão da leitora Luana de Carvalho, para que o Pasquim entrevistasse Clarice Lispector, ele extrapolou: "Clarice, Luana, só a Índio do Brasil, com dois ss." Em depoimento a O Jornal (20/7/73), Henfil explicitou as razões do severíssimo castigo imposto à autora de A hora da estrela:

"Eu a coloquei no Cemitério dos Mortos-Vivos porque ela se coloca dentro de uma redoma de Pequeno Príncipe, para ficar num mundo de flores e de passarinhos, enquanto Cristo está sendo pregado na cruz. Num momento como o de hoje, só tenho uma palavra a dizer de uma pessoa que continua falando de flores: é alienada. Não quero com isso tomar uma atitude fascista de dizer que ela não pode escrever o que quiser, exercer a arte pela arte. Mas apenas me reservo o direito de criticar uma pessoa que, com o recurso que tem, a sensibilidade enorme que tem, se coloca dentro de uma redoma. (...) Ela escreve bem à beça, um potencial excelente para entender as angústias do mundo. O maior respeito todo mundo tem por Clarice Lispector. No entanto, ela não toma conhecimento das causas e dos motivos desses problemas existenciais, não só dela como do mundo inteiro. Foi por isso que botei a Clarice lá. Ela não gostou, e eu não vou tomar uma atitude fascista de matá-la."

Quem sabe escaldado, na última hora Henfil desistiu de mandar para o cemitério dois baluartes da literatura brasileira: Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado. Ele torcia o nariz para crônicas de Drummond no Jornal do Brasil, julgando-as "comportadas demais", e cobrava de Amado coerência com o passado comunista. Quando soube da intenção de Henfil de sentenciar Drummond, Ziraldo, amicíssimo do poeta, se rebelou:

— Você endoidou? Até o Drummond?

Os quadrinhos já estavam paginados, Henfil hesitou. Minutos antes de o Pasquim rodar, achou prudente acatar o oráculo de Caratinga e retirou o cartum-bomba. O de Jorge Amado — classificado pelo próprio semanário de "romancista maior" (vide número 128) — também foi arquivado. Mas os dedos de Henfil só pararam de coçar quando destilou o mau-humor contra os dois escritores numa dica do número 140 (7 a 13/3/72):

"No meu torrão só tem bonecas. E nestas bonecas estão incluídas o Jorge Amado (agora só anda nas colunas sociais, Jorginho?) e o Carlos Drummond de Andrade (aquele que só escreve 10%; nos 90% restantes, fala de lebres, palmeiras e trocadilhos colegiais). Não falei que torrava o gênio, Ziraldo? Tem tanta gente tão boazinha, tão comportadinha e tão prestativa que alguns deveriam até colocar luzinha vermelha na porta de casa e a tabuleta 'Familiar'. Mas no meu torrão tem um macho! E agora vão entender por que o Jorge Amado (de hoje) e o Drummond são de fritar bolinhos: o macho é Alceu Amoroso Lima. É ler no JB pra confirmar."

Outra inclusão que gerou controvérsia foi a de Elis Regina, após ter cantado o Hino Nacional no show de abertura da Olimpíada do Exército de 1972. No número 147 (25/4 a 1/5/72), o Cabôco faz uma faxina no cemitério antes de anunciar a surpresa: Elis regendo entusiasticamente o coro dos mortos-vivos, integrado por Roberto Carlos, Tarcísio Meira e Glória Menezes, Pelé, Paulo Gracindo e Marília Pera. O Cabôco provoca Elis com a segunda voz: "Menina vai,/com jeito vai/senão um dia/a casa cai!"

A cantora reclamou pelos jornais da intolerância de Henfil, que voltou à carga, desenhando Elis dentro do túmulo, zangada: "Vocês, humoristas, são engraçados! Querem ser guarda-moral de todo mundo! Não querem que nós, cantores, façamos concessões. Podem me chamar de Elis Regente de Comerciais Silva! Mas vocês acham que eu não preciso desse dinheiro para viver?" Ela pede ao Cabôco Mamadô que acabe com a sua agonia e a reencarne logo. O Cabôco acolhe o pedido e Elis surge reencarnada como Maurice Chevalier. Ela acha o máximo e pergunta em que ano estão. O Cabôco responde: "15 de janeiro de 1945. Neste ano, Maurice Chevalier, convidado por Hitler, fazia um show na Alemanha!"

Quarenta e cinco dias depois, Henfil emitiu um sinal de que havia se arrependido do vitupério. No número 154, elogiou o novo disco de Elis, ainda que com um resquício de mordacidade: "Fiquem certos de uma coisa: Elis Regina é melhor que a Elis Regente!" (É bom que se diga que Henfil gostava da intérprete Elis. Nos recadinhos que divulgava pelo Jornal dos Sports, em 1969, recomendou a amigos mineiros virem ao Rio assistir ao show dela no Canecão.)

Henfil edificou jazigos para economistas que se converteram em tecnocratas a soldo do regime; para arquitetos que se aliaram à especulação imobiliária; para médicos e advogados que cobravam fortunas dos clientes; para cientistas que punham os cérebros a serviço da corrida armamentista. Criou o personagem Open Raimer, agente químico que, a cada fórmula destrutiva vendida ao Pentágono, repetia em causa própria: "Eu tinha que sobreviver, entende?"

Nas rebordosas colecionadas por Henfil no Pasquim, sobressaiu a sua repulsa aos Festivais Internacionais da Canção (FIC), promovidos pela TV Globo na passagem dos anos 60 e 70. Que ninguém cometesse a barbaridade de lhe perguntar se assistira ao FIC, pois ele espumava de raiva. Primeiro, achava que os festivais eram uma armação da Globo para desviar a atenção do país dos desmandos oficiais. Segundo, que o evento favorecia a divulgação massiva da música estrangeira, relegando a música popular brasileira à segunda divisão. Quanto à parte do FIC destinada à MPB, ele se queixava de que só selecionavam músicas inofensivas e alienadas. Para tripudiar do "Galo de Ouro", símbolo do FIC, em julho de 1971 Henfil inventou o "Urubu de Prata", a ser conferido a personalidades da música popular brasileira. Coube ao joalheiro e escultor Caio Mourão confeccionar, artesanalmente, quatro troféus, sendo os dois primeiros contemplados Pixinguinha e Chico Buarque. Henfil entregou pessoalmente o "Urubu de Prata" a Pixinguinha num programa de auditório da TV Tupi.

Henfil guardou todo o seu escárnio para o VII FIC, em 1972. Na capa do número 169 (29/9 a 2/10), trocou o "Galo de Ouro" pelo "Galo de Tróia", empurrado pelo Tio Sam. No bolso do ícone imperialista, um contrato da Cash Box e da TV Globo. As fundações da MPB tremeram quando Henfil construiu um túmulo para Nara Leão, presidente do júri nacional, no Cemitério dos Mortos-Vivos. O Cabôco Mamadô — que os leitores supunham aposentado — questiona a cantora: "Como você pode, Narinha, musa do Opinião, ser presidente do júri do festival? Do festival de gado musical da Globo!" Nara responde: "Sou uma profissional, entende?" Cabôco não entende: "Nara presidente do júri! Ó céus! Ó mancha solar!"

Henfil tachava de adesão ao sistema qualquer participação no FIC — o que o impedia de considerar, por exemplo, que cantores e compositores estavam exercendo seu ofício em evento com similares em vários países, além de prestigiado por grande público. Preferia achar que os artistas deixavam-se cooptar. Não é outro o sentido de sua reprimenda a Gilberto Gil, por ter cantado no show do FIC após o exílio em Londres: "Gilberto Gil já curou suas feridas. (...) Para provar que é um homem novo, um homem perfeitamente integrado na sociedade, estendeu a mão para formar o grande cordão. O cordão que lentamente vai chamando a todos e todos vão respondendo: sim!"

Ao reavaliar esse período, em depoimento ao jornalista Tárik de Souza, Henfil confessou que a inflexibilidade do Cabôco Mamadô acarretou dores de consciência e complexos de culpa. "Eu fiquei ferido por cada pessoa que eu feri, e essas pessoas, com raríssimas exceções, não ficaram tão feridas quanto eu. Então, eu depois fiquei chateado de ter agredido o Carlos Drummond de Andrade. Eu fiquei feridíssimo porque agredi Clarice Lispector, e Elis Regina! Eu fiquei com uma culpa de tudo quanto é tamanho por ter agredido, por ter enterrado a Elis Regina. Houve raras exceções, como, por exemplo, o Amaral Neto. Este valeu."

O jornalista e escritor Zuenir Ventura lembra-se bem do choque causado na área cultural com o aparecimento do Cabôco Mamadô: "Havia uma quase unanimidade em relação a determinadas pessoas estarem no cemitério, mas em relação a outras, não. Era uma coisa muito forte e agressiva, até irritante."

Zuenir observa que a radicalidade das cobranças do Cabôco Mamadô não pode ser vista como uma mera patrulha, muito menos como uma expressão de ressentimento ou vingança. Ele invoca o testemunho de sua convivência com Henfil para afastar a idéia de o Cabôco agir por simples rancor: "Por trás daquele humorista cáustico e radical, havia uma pessoa amorosa, incapaz de ódios."

O Cemitério dos Mortos-Vivos, no entender de Zuenir, traduzia "um desesperado, às vezes injusto e extremado gesto de conclamação à resistência democrática". E completa: "Henfil tinha razão ao achar que vivíamos um período em que não dava para você ficar em cima ou atrás do muro. Era importante, naquele processo de reconquista da democracia, a mobilização da sociedade civil e da intelectualidade. Ora, ele sabia que era indispensável ter todo mundo que se opunha à ditadura dentro de um mesmo saudável saco-de-gatos. O que nos levou à abertura? Foi o fato de que se conseguiu dividir o país, maniqueisticamente (e tinha que ser assim), entre as trevas e as luzes, entre o bem e o mal. Naqueles pesados anos Médici, o saco-de-gatos ainda estava se formando. Hoje, a minha leitura daquele sectarismo aparente do Henfil leva-me a crer que o Cemitério dos Mortos-Vivos embutia uma metáfora: quem não está lutando e resistindo está morrendo ou já morreu. Ele ressaltava essa morte simbólica e nos dizia: precisamos resistir de alguma maneira."

Não é difícil validar a linha interpretativa de Zuenir Ventura. O próprio Henfil declarou, nos anos 80: "Na ditadura, eu acentuava muito a agressividade do humor. Tínhamos que encontrar um jeito de obrigar as pessoas a refletirem sobre o que estava acontecendo." Com o passar dos anos, as cobranças aos vacilantes, adesistas, mistificadores e corruptos apenas alternariam intensidades — porque o cartunista jamais se apartaria de seu comportamento atrevido e tipicamente justiceiro. O irmão Betinho costumava dizer que Henfil "era totalmente Robin Hood, totalmente a favor dos pobres, dos bons contra os maus". Na abertura política, Henfil reavivou a metralhadora giratória para desancar personalidades reluzentes do regime militar, como o economista, diplomata e ex-ministro do Planejamento Roberto Campos. No número 710 do Pasquim (3 a 9/2/83), audaciosamente Henfil publicou o seguinte perfil de Campos, então senador pelo PDS de Mato Grosso:

"Nome: Roberto de Oliveira Campos.

Vulgo: Bob Fields.

Naturalidade: MT, muito antes da divisão do Estado.

Nacionalidade: polivalente — 50% americano, 30% europeu, 10% petrodólar e 10% brasileiro (a provar).

Profissão: economista da velha guarda e senador da nova.

Atividades importantes: criador da Consultec, empresa que bolou o modelo brasileiro de desenvolvimento. É acusado de ser o avô do ‘milagre econômico’. O mais forte candidato ao disputado título de ‘Maior Entreguista do Brasil’.

Sinais característicos: facadas por todo o corpo.

Onde mais pretende atuar no Senado: as comissões."

Roberto Campos não respondeu.

Aqui e ali, Henfil cometia excessos e erros de avaliação — mas é indiscutível que muitas de suas estocadas aclaravam a consciência crítica, expunham mazelas das elites dominantes e destilavam indignação cívica. Odiava o humor pelo humor e arremessava dardos contra o que classificava de "a ditadura do riso, que leva todo mundo a rir de qualquer bobagem". Em 1985, por exemplo, torpedeou os humoristas do Casseta e Planeta: "Esse pessoal pensa que está fazendo humor. Não está. Eles apelam para o besteirol, com piadas preconceituosas até contra deficientes físicos."

VI

Henfil jamais afastou-se do Pasquim. De setembro de 1972 a julho de 1973, editou o jornal, tendo sido, ao lado de seu amigo José Eduardo Barbosa, o principal colaborador na competente gestão de Millôr Fernandes à frente da Codecri. Da equipe inicial do semanário, haviam saído, em sucessivos rachas internos, Tarso de Castro, Claudius, Sérgio Cabral, Fortuna, Martha Alencar e Luiz Carlos Maciel. Juntos, Millôr, Henfil e José Eduardo conseguiram debelar a gravíssima desordem financeira, em boa parte motivada por falta de visão empresarial do grupo fundador e por certos esbanjamentos no período de maior sucesso (como os litros e litros de uísque escocês consumidos em noitadas por bares e boates da Zona Sul). Mas a síndrome da crise voltaria a acossar o Pasquim em meados de 1975. Faltou dinheiro para pagar em dia os funcionários, a gráfica e os colaboradores. O triunvirato havia se dissolvido: Henfil se desligara da editoria ao viajar para os Estados Unidos; José Eduardo Barbosa tinha saído em março de 1974; e Millôr Fernandes deixara a presidência em março de 1975, após a suspensão da censura prévia. Além disso, o semanário já não pontificava sozinho na imprensa alternativa — tinham aparecido o Opinião, o EX e o Politika para dividir o mercado. O jornal seguiu em instável equilíbrio, como se a qualquer minuto pudesse despencar da corda bamba.

Mesmo morando em Nova York, Henfil não esquecia de enviar cartuns, por malote aéreo. De volta ao Brasil, a maratona de encargos profissionais e políticos obrigou-o a sumir por meses — chegou a trabalhar, simultaneamente, para sete publicações. Reaparecia quando menos se esperava. Foi no Pasquim que publicou, em capítulos semanais, os relatos dos dois anos nos Estados Unidos e da épica viagem à China. Editados depois pela Codecri, os textos se transformariam nos best-sellers Diário de um cucaracha e Henfil na China. E criou tipos famosos como o Preto-que-Ri (numa forma de combater a discriminação racial às avessas, o personagem conformava-se com os insultos e preconceitos) e o Delegado Flores (um policial que protegia os oprimidos e reprimia os corruptos). Em abril de 1976, lançou Ubaldo, o Paranóico, que refletia os medos coletivos na lúgubre atmosfera de perseguições e violências praticadas pelo governo do general Ernesto Geisel contra organizações de esquerda, notadamente o PCB e o PC do B. Dois anos depois, Henfil reaqueceu as vendas do semanário ao guerrear com os baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Glauber Rocha, aos quais acusava de "alienados" por apoiarem, em maior ou menor grau, a abertura "lenta, gradual e segura" do general Geisel. Na contenda, Henfil cunhou a expressão "patrulha odara" como contraponto às "patrulhas ideológicas", expressão usada pelo cineasta Cacá Diegues para definir o que considerava equívocos de esquerda patrocinados pelo sectarismo ideológico. Os patrulheiros odaras eram aqueles que exigiam dos outros criações apolíticas e atitudes escapistas. Também no Pasquim, Henfil integrou-se às memoráveis campanhas pela anistia ampla, geral e irrestrita, pelo restabelecimento das eleições diretas para governadores e pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte.

A agonia final do Pasquim, na segunda metade dos anos 80, coincidiu com a doença e a morte de Henfil, por complicações decorrentes da Aids, depois de contrair o vírus HIV em transfusões de sangue. Um ano antes de morrer, em 4 de janeiro de 1988, Henfil ainda mandava cartuns para o Pasquim. O ganha-pão vinha agora das tiras que publicava diariamente em O Globo e O Estado de S. Paulo. Debilitado após graves cirurgias e internações, Henfil vivia deprimido, sentindo-se isolado política e profissionalmente desde que se opusera à candidatura de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral de janeiro de 1985. Fiel ao Partido dos Trabalhadores, do qual foi um dos fundadores, preferiu abrir de mão de sua grande tribuna de interlocução com a sociedade civil — a última página da revista Isto É, que ocupava desde 1977 — a aderir à Aliança Democrática, que encerraria 21 anos de regime militar. Não aceitou o veto da chefia da redação a um cartum em que atacava duramente Tancredo. No curso dos acalorados debates sobre a conveniência de a Oposição disputar o Colégio Eleitoral, viu amigos afastarem-se e perdeu importantes espaços na mídia. Por paradoxal que pareça, restaram-lhe dois empregos em jornalões que sempre combatera ideologicamente. A sua eventual válvula de escape era o já combalido Pasquim — no qual, aliás, publicou uma de suas últimas tiras mais inspiradas. Baixinho e Cumprido caminham juntos. Cumprido discursa: "Meu papel histórico é estancar o pus dos sofredores, absorver o sangue dos injustiçados." Baixinho vira-lhe as costas, rebatendo: "Isto não é um papel histórico, isto é um Modess..."


Atolado em dívidas e sem o vigor editorial de outrora, o Pasquim queimaria suas reservas de fôlego com as divergências político-partidárias na campanha eleitoral de 1982, que resultaram no afastamento de vários colaboradores, entre eles Ziraldo. Nos anos seguintes, Jaguar fez de tudo para assegurar a sobrevivência do jornal, mas acabou tendo que passá-lo adiante. Na virada da década de 1990, o Pasquim saía da vida para gravar na História as suas inesquecíveis jornadas de rebeldia e de jornalismo verdadeiramente inovador.



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